sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

soderbergh, really got it

finalmente tive tempo para ver este exercício cinematográfico do realizador da saga "ocean's 11", "the informant!" e do estupendo "sex, lies and videotape"... falo-vos do mais ou menos esquecido bubble - bolha de 2005.
Viver numa bolha, numa cidade industrial, com uma vida rotineira a fazer bonecas, um penteado estagnado em 1975 de um vermelho suburbano, a cuidar do pai idoso, a coser roupa para bonecas à noite, com um único amigo que tem metade da sua idade, a fazer favores a todos, esta mulher que vive numa bolha, sem vida amorosa, é um monstro em ebulição, um monstro social, pronto a explodir, e explode (mesmo sem perceber) quando o seu único amigo corre o risco de lhe ser tirado... aí ela torna-se instintivamente e primitivamente uma assassina sem mácula e amnésica, a sociedade, especialmente esta sociedade retratada por soderbergh é progenitora de assassinos que são aparentemente pessoas banais, mas que estão severamente deprimidas e destroçadas pela vida que levam, nascem e morrem sem viver. Mas onde está então o génio de soderbergh, neste filme que foi tão odiado pela crítica e que parece não querer acrescentar nada de novo?
Soderbergh teve a sensibilidade de usar actores não profissionais, desse modo criou um realismo mais incisivo quando a personagem é confrontada com o crime que cometeu, o que provoca no espectador a estupefacção e pena, tornando ainda mais cru e indigesto perceber o que se passa na cabeça destas pessoas, e como é possível que passemos a vida toda a ignorá-las. Ele não usou actores não profissionais para recriar uma fábula egocêntrica ou devaneios que precisam de adendas para serem percebidos , lembro-me dos filmes do João Pedro Rodrigues, que por não se sustentarem no argumento, resvalam para a patetice passados 5 minutos (e está-se toda a gente a rir, quando não é suposto rir), Soderbergh preferiu usar actores não profissionais porque neste caso, do ponto de vista do espectador seria mais violento o embate com a realidade, e foi exactamente o que sucedeu, sem adornos, nem falsas caricaturas, apenas as caras, os gestos e as frases e ninguém quer saber se são ou não profissionais, porque no fim de contas somos nós (espectadores) que estamos ali, a olharmos para nós.
Pode não ser o filme perfeito, mas é um exercício sublime de um realizador que nunca se cansa de experimentar e que acima de tudo demonstra uma inteligência para com o público que poucos conseguem.




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