sexta-feira, 11 de novembro de 2011

o cinema português como nunca se ouviu




sangue do meu sangue representa o auge da carreira de canijo, o realizador já tinha surpreendido com noite escura, mas apurou o seu sentido estético neste sangue do meu sangue para mim, o melhor filme do ano até agora.
assisti a uma sessão das 16h15 onde se encontravam pouco mais de 30 pessoas, a maior parte reformadas, com penteados e casacos de inverno iguais, alguns maridos acompanhavam-nas, fazendo jus ao que hitchcock uma vez disse, que no cinema basta conquistar 50% da plateia, no caso as mulheres, os homens seguem-nas por dever ou obrigação conjugal.
antes do filme começar passou o trailer do novo de almodóvar, " a pele que habito" ele que atingiu o estatuto de ser tratado no trailer como o "almodóvar", o "novo filme de almodóvar", deve ser reconhecimento americano, não sei... achei engraçado o pormenor, mas adiante, no trailer de "a pele que habito" lê-se, "há pessoas que nascem para sobreviver", ora os personagens de sangue do meu sangue, todos eles sobrevivem, sobrevivem à trama, afinal de contas, sangue do meu sangue é simplesmente o filme mais bem escrito que este país já produziu... e se só por isso não é pouco, o impacto das personagens e do seu realismo (mas o realismo profissional de quem fez um trabalho de casa exaustivo e não a malandrice do costume de atirar actores amadores às feras) é tão profundo, que nos sentimos oprimidos durante os 145 minutos de duração desta versão... para alguns incomodativo, o excesso de "caralhos" e "fodasse" e o rol de palavrões com precisão cirúrgica (normalmente linguagem não querida no cinema português, especialmente pelo legado de realizadores como oliveira e césar monteiro), um trabalho fantástico da rita blanco que recria na perfeição uma mãe de subúrbios, que entre o desafogo da filha que se apaixona por um homem casado pensa na sopa que irá fazer no dia seguinte, não há inocentes neste filme, todos têm passado, presente, alguns têm menos futuro que outros. o filme é tão portentoso, que há cenas, como aquela em que anabela moreira (a irmã odete de rita blanco na trama) fuma um charro com o sobrinho mulato no sofá, é das cenas mais bonitas do cinema português dos últimos 20 anos, e que orgulho ser português e pertencer a este retrato, que embora, para as reformadas pseudo-coquetes que lá estavam provocava desconforto, para a minha geração é um retrato quase perfeito desse mundo que vive fora do círculo de endinheirados da cidade metrópole (e que todos os que não são cegos sabem que existe) e que sobrevive com os problemas, a droga, as etnias, as diferenças culturais, o analfabetismo na terceira idade, a falta de educação escolar básica, a falta de assistência médica, as famílias uni-parentais, a solidão, mas acima de tudo e ainda assim o respeito pelos valores da família, seja ela qual for ou como for, que grande trabalho de escrita, que grande trabalho de actores e que grande realização, mesmo na inclusão de actores não profissionais, as cenas são tão bem conseguidas que não se nota, não há o impacto patético de um joão pedro rodrigues, ou a intelectualidade barata do miguel gomes, é um filme honesto do princípio ao fim, até o aparente "outcast" do doutor (marcello urgeghe) que se apaixona pela filha faz sentido, porque deixa no ar a ideia, que aquela pose de cinema eloquente e bem comportado a "la oliveira", é como se fosse um contraponto ao cinema agressivo da periferia (a cena final com um formidável marco lopes numa atitude sadística, lembrou-me influências de tantos realizadores, mas não no mau sentido, num sentido apurado de quem cria cinema sabendo aprender a deixar-se influenciar pelo trabalho dos outros) um filme fantástico, que merecia que todos os portugueses o pudessem ver, e que se deixassem contaminar pelo sangue deste monstro cinematográfico, este filme revoluciona o cinema português, ele mostra que há mais cinema para além do cinema dos críticos do ípsilon e do expresso, e também por isso, levaram um chapada de luva branca, embora não o admitam... sangue do meu sangue está nos cinema do corte inglês (por exemplo), e noutros... aproveitem e vão vê-lo para que fique em exibição muito mais tempo...

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