terça-feira, 15 de novembro de 2011

"life on Earth is evil, nobody will miss it"






não podemos dizer que quem não gosta de música clássica, não a vá adorar depois daquela abertura visualmente estonteante... justine carrega um fardo, um imenso "peso nas pernas" como se carregasse o destino do mundo, bíblico, como a lenda de São Cristovão, que carregou o peso do mundo às costas, quando voluntarioso transportou o menino Jesus ao ombro para a outra margem, "ou os pecados do mundo".
de certeza que lars von trier andou a ver séries de televisão (às escondidas), o 24 com o sutherland e o true blood,  alexander skarsgard  como o vampiro mais sexo-sádico (se existir) dos últimos anos, (e há o pai deste na vida real, stellan skarsgard que já teve também o seu quê de estrela televisiva na suécia natal para além de actor regular no cinema de von trier e noutros hits à moda americana), e isto pode ser motivo para a crítica europeia conservadora, nomeadamente a portuguesa sentirem remorsos suficientes para detestar melancholia... de facto, logo de entrada há um exagero saudável e interessante (to say the least) de estrelas televisivas e cinematográficas hollywoodescas, suficiente para os críticos europeus preferirem cortar os pulsos a escrever coisas simpáticas do filme, na  américa "au contraire" está "hype and dype", 82/100 segundo o metacritic.
kirsten dunst, de virgem suicida a rainha sem cabeça, eu sei, pode parecer bizarro, mas ela parece uma versão "au feminin" do noivo, talvez houvesse intenção de incesto premeditado na cabeça de von trier... ambos possuem aquele não sei quê de olhar doce e malévolo ao mesmo tempo, como os gatos, isso mesmo, os gatos.
vivemos num clima de medo, esta crise mundial, que nos tornou reféns de um sistema político corrompido pelo corporativismo financeiro, e o fim do mundo, já esteve mais longe, é uma bela metáfora, é poético também, os homens são mais fracos que as mulheres (claire a irmã de justine, uma seráfica charlotte gainsbourg) em alturas de crise, nos momentos de aflição, preferem virar a cara ou desaparecer, e depois justine (dunst), uma espécie de profeta (também mulher curiosamente) que prevê ou sente como se fosse uma analista de mercados na bolsa de nova iorque... ou de corações... o dela já foi quebrado, antes do planeta chegar, já não há escapatória, mais vale entregar-se...
é inevitável que o mundo caminha para um fim, não morreremos com o choque de um planeta estranho, mas provavelmente estaremos todos doentes de stress, pânico, ansiedade, depressão, antes que alguma coisa nos atinja, esta sensação de medo eminente, que nunca se concretiza, pelo menos lars von trier encontra uma saída, e transforma duas irmãs heroínas e não sacrificiais no aspecto tenebroso, na forma como se entregam no fim... infelizmente, hoje em dia, o planeta já nos atingiu, e o mais certo que temos, é mesmo a morte, irónico uhmm, senão do mal, da cura, e podemos sempre "esconder-mo-nos" numa "caverna mágica", a esperança é coisa de crianças, mas sem elas nada disto faria sentido...
é um filme actual, sincero, visualmente poético de uma tristeza e malancolia bipolar, é tudo o que se pode querer quando se espera cinema tão bom.

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